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Anexo de Bisbilhotices

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Quinta-feira, Julho 03, 2008



TEXTO: 283.

TIO JORGE LANÇA NOVO LIVRO
E COMEMORA SEU ANIVERSÁRIO


. . . ( 4 DE JULHO )

Apresentação do Prefácio pelo autor:

SALIM KEDOUK

PREFÁCIO NO LIVRO
SEGREDOS E MEMÓRIAS DA SINUCA

Dediquei esse novo trabalho aos dois maiores
jogadores de Sinuca do Brasil de todos os tempos,
com quem tive a oportunidade de conviver: Lincoln
e Carne Frita. Hoje, com o falecimento do meu querido
amigo Salim Kedouk, presto minha última homenagem
usando o prefácio que ele tão bem elaborou para
o meu livro Segredos e Memórias da Sinuca,
transcrevendo-o a seguir.
Jorge Dias

____________________________________________________________

PREFÁCIO

Quando, pela primeira vez, tomei contato com uma
mesa de sinuca, fiquei encantado com o pano verde e
suas bolas coloridas. A emoção de colocar à prova
minha própria habilidade era um desafio que tinha de
vencer, além de provar que teria condições de competir
de igual para igual com qualquer jogador.
Sem parâmetros e orientações, não havia
condições para um aprendizado rápido e correto.
Comecei da forma mais errada possível: não sabia
da importância de ter um bom taco, um bom giz,
não conhecia efeitos, não tinha noções de defesa
nem sabia puxar uma bola (fazer a bola branca
retroceder ao entrar em contato com outra bola),
minha forma de segurar o taco e meus
posicionamentos eram incorretos.
Foram vários anos observando os detalhes
de cada jogada realizada pelos grandes mestres
da época, para que eu pudesse atingir o ponto ideal.
Pensando num futuro distante, Jorge Dias Teixeira
fundou no Rio de Janeiro, em 1973, a primeira Federação
de Sinuca do Brasil. Podemos dizer que sua iniciativa
estabeleceu o marco zero da sinuca.
Conviveu no passado e convive no presente com os
melhores jogadores de Sinuca, verdadeiros mestres
que revolucionaram a arte em cima do pano verde.
As experiências vividas pelo autor certamente o
credenciam a transmitir seus conhecimentos aos leitores
desta obra. Os detalhes técnicos de aprendizado contidos
neste livro, as dicas sobre tacos, bolas, giz, solas etc.
serão, sem dúvida, muito úteis na iniciação ou mesmo
no desenvolvimento daqueles que buscam a evolução
através dos conhecimentos aqui contidos. Conhecimentos
que certamente deixam de ser segredos da sinuca.
Sinuca, és impávida e colosso. Teu futuro espelha
tua grandeza. Teu passado,
condenado e execrado pela sociedade, guarda as mais belas
histórias que uma classe poderia ter.
Não podemos separar o passado do futuro, assim
como não podemos separar o rio de seu leito, mas muitas
coisas podem mudar ao longo do tempo. Se antes o rio era
caudaloso e suas águas imundas. Hoje desliza suavemente
em águas transparentes.
Guardadas as devidas proporções, como seriam os
Estados Unidos se aquela brava gente, formada por bandidos
e mocinhos, não desbravasse as terras e alargasse suas
fronteiras? Não havia lei nem ordem. Os mais fortes ditavam
as regras e não hesitavam matar aqueles que não as
cumprissem.Que passado seria mais condenável?
No entanto, histórias enaltecendo o passado são cantadas
aos quatro ventos. Bandidos viraram heróis, feitos e glórias
se misturaram. Tudo foi perdoado. Não sabemos mais
quem eram os mocinhos e quem eram os bandidos.
Mas de uma coisa temos certeza: cada um, à sua maneira,
contribuiu para formar uma grande nação.
Tabus e preconceitos sempre fizeram parte da sinuca.
Enquanto praticada pela aristocracia em suas mais diversas
camadas, era considerada um esporte nobre.
Quando os bem intencionados aristocratas resolveram massificar
a sinuca, o objetivo era que todos pudessem desfrutar do prazer
que sua prática trazia. No início, envoltos em aura de elegância
e romantismo, os freqüentadores das casas com mesas de
sinuca divertiam-se com a nova moda. Os salões prosperavam e
a cada dia mais adeptos aderiam a esse novo lazer.
Ao popularizar-se principalmente no Brasil, foi classificada
como jogo de azar e como tal foi tratado pelas autoridades de
todo o país. Como explicar essa radical mudança de conceito?
Falta de informação, de regulamentação? Ou nenhuma, nem outra?
A questão é: como pode ser considerado jogo de azar se sua prática
exige precisão absoluta, coordenação motora, preparo físico aliado
à lógica? Acuidade visual e talento são fatores essenciais para
um bom jogador. Uma pesquisa mais profunda talvez revelasse
como, por quê e quando aconteceu. Quem sabe o surgimento
de conceitos e preconceitos negativos tenha acabado por gerar
tal rótulo.
Posso afirmar que a criatividade e genialidade dos jogadores
brasileiros fizeram a diferença. Sentindo a possibilidade de
ganhar dinheiro fácil com a nova moda, principalmente
malandros e desocupados procuraram aprender a jogar Sinuca.
Possuindo talento nato — e dispostos a apurar suas técnicas
com muito treinamento — eles descobriram os segredos
do jogo e guardaram a sete chaves.
Com o poder de percepção das vaidades humanas,
malandros e profissionais se valiam dessa qualidade e,
de forma criativa e sem violência, tratavam de depenar
aqueles que se atrevessem a enfrentá-los. Os grupos
mais fracos, formados por iniciantes e pretensos
jogadores, jamais teriam chance de vencer um oponente
preparado e conhecedor dos segredos da sinuca. Podemos
usar como termos comparativos as seguintes situações:
que chances um lutador amador de boxe teria
se enfrentasse um profissional? Ou o inexperiente e sem
preparo físico vencer o experiente e bem preparado
maratonista? Essas perguntas se estendem a todas
as modalidades de práticas esportivas.
Um bom observador pode definir algumas
características da personalidade de um jogador,
simplesmente analisando as atitudes e decisões tomadas
no transcorrer do jogo. Por exemplo, se o jogador fica inibido
com a presença de público e não consegue desenvolver
seu potencial durante as partidas, certamente na vida
pessoal ele é tímido. Se numa jogada duvidosa prefere
não arriscar, optando por segurança, e usa o recurso
de defender o jogo, na vida pessoal revela-se como
uma pessoa cautelosa e prudente. Jamais será um
jogador completo. Se, ao contrário, procura decidir
as partidas sempre que uma chance aparece, tende
a ser irresponsável, não dando muita importância às
conseqüências de seus atos. Certamente terá
muitos momentos de glórias e decepções. Na vida
pessoal, um dia se sentirá no paraíso e outro no inferno.
Aquele que consegue mesclar a segurança e o momento
certo de arriscar para decidir uma partida, demonstrando
ser uma pessoa equilibrada e segura de seus atos. Sua
vida é pautada por sucessos e realizações pessoais.
Para aplicação de todo potencial que possuímos,
um fator muito importante é a concentração. Quando
estamos concentrados naquilo que fazemos, não importa
a atividade que estivermos praticando, atingimos naquele
momento nossa capacidade máxima. Nada nos incomoda,
não notamos barulhos nem percebemos os movimentos
ao nosso lado. Atingir a concentração plena não quer dizer
que seremos imbatíveis, mas, sim, que com certeza
estamos desenvolvendo nossas habilidades na maior
plenitude.
Quando falo no potencial que possuímos quero
dizer que temos limitações na nossa capacidade
de evolução, execução e realização das jogadas. Para
ser considerado um jogador de primeira grandeza, não
basta só conhecer tabelas, efeitos, saber puxar a bola
branca e ter noção dos fundamentos técnicos. Treinar
intensamente não significa que o atleta será um jogador
de primeira grandeza, porque o treino não é fator
determinante na evolução. Ao atingir seu limite, o jogador
praticamente estaciona seu potencial naquele patamar.
Para se ter uma idéia, entre os milhões de praticantes
de sinuca existentes no Brasil, podemos dizer que não
temos mais do que seis jogadores fora de série. Os
treinamentos são importantes para manter a forma física,
adquirir mais experiência, malícia, gerar confiança
e aprimorar a forma técnica. Mas não foram eles que
transformaram, por exemplo, Pelé no maior jogador
do mundo — e, sim, seus músculos privilegiados
que, aliados à preparação física, foram preponderantes
numa evolução diferenciada.
Como explicar os esportes coletivos ou individuais em
que poucos se destacam, apesar dos treinamentos
serem exaustivos? Na sinuca também não é diferente.
O talento aliado às condições físicas ideais, assim
como ser líder de fato, são atributos natos nas pessoas.
O mais importante atributo físico para que o
jogador supere seus limites é ter um pulso muito firme.
Essa qualidade facilita a realização com sucesso
de jogadas que para muitos seriam impossíveis de
executar. Aprender as técnicas e as posturas
do corpo em relação ao jogo, ter um bom taco
e um giz de qualidade colaboram muito. Conhecer
tabelas e efeitos também é determinante na hora
de decidir uma partida.
Acrescente-se a tudo isso a importância de saber
posicionar-se corretamente, tanto em relação aos
pés como às mãos.
A Sinuca sempre foi um jogo de habilidade pessoal.
Não importa a inteligência, o grau de cultura ou condição
social do jogador. O maior exemplo dessa teoria chama-se
Carne Frita. Embora nunca tenha tido a oportunidade
de estudar, é considerado um gênio como jogador
de Sinuca. Um verdadeiro general que estabelece
suas estratégias de batalhas. Suas jogadas criativas
foram assimiladas e praticadas por grandes jogadores;
seus conceitos de defesa e ataque passaram a fazer
parte na forma de jogar.
As histórias do passado não se repetem. Hoje,
a Sinuca é considerada um esporte muito saudável.
Assim como na Inglaterra e outros países, podemos
ter nossos profissionais representando o Brasil
nas competições internacionais.
Neste livro o leitor terá oportunidade de conhecer
os ensinamentos que desvendam os segredos da
Sinuca. Podemos dizer que foram criados aqui atalhos
de conhecimentos técnicos que abreviam o aprendizado,
fortalecendo e acrescentando algo mais aos que
já possuem experiência. A profundidade dos ensinamentos
e a variedade dos assuntos permitem ao leitor adquirir
conhecimentos de uma forma bastante simples e
proporcionam um aprendizado rápido mesmo para
aqueles que desconhecem regras e fundamentos
dos jogos de sinuca.
Jorge Dias Teixeira, autor deste livro, é um
dos baluartes da Sinuca no Brasil e também profundo
conhecedor de seus segredos. Em sua incansável luta
pela divulgação, dedicou boa parte de sua vida
à moralização da Sinuca e seu reconhecimento
como esporte.
Meus agradecimentos ao autor Jorge Dias Teixeira
pela oportunidade de escrever este prefácio e poder
registrar minha extrema admiração por tudo que
tem feito pela sinuca desde os idos da década
de 1970, quando lançou a pedra fundamental
e conseguiu, com a ajuda de muitos,
transformar um jogo marginalizado num esporte sério,
competitivo e respeitado.

SALIM KEDOUK
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